Líder rebelde aceita negociar paz com governo do Congo…

17/11/08

O líder guerrilheiro Laurent Nkunda declarou neste domingo (16) que está disposto a negociar com as autoridades da República Democrática do Congo (RDC), presidida por Joseph Kabila, para obter um cessar-fogo no leste do país, após mais de dois meses de contínuos enfrentamentos entre o Exército e as forças rebeldes do Congresso Nacional para a Defesa do Povo (CNDP).

“Nós queremos entrar em contato com nossos adversários para obter um cessar-fogo”, afirmou Nkunda depois de uma reunião de quase duas horas com o emissário da ONU para o leste da RDC, Olusegun Obasanjo.

Jerome Delay/AP
Nkunda, de terno, concordou com acordo de paz após visita de Olusegun Obasanjo
Nkunda, de terno, concordou com acordo de paz após visita de Olusegun Obasanjo

O encontro aconteceu na cidade de Jomba, a 80 km ao noroeste de Goma, capital da região de Kivu Norte, perto da fronteira com Ruanda e Uganda.

O chefe insurgente voltou a reiterar que respeita o cessar-fogo proclamado unilateralmente por seu movimento no dia 29 de outubro.

Nkunda disse também que os rebeldes permitirão a formação de um “corredor humanitário” para permitir a chegada de ajuda humanitária à população congolesa, que sofre com o conflito que castiga o leste da RDC desde 1998.

Embora Nkunda tenha apoiado a iniciativa da ONU de começar um novo processo de paz, disse que seu adversário político, o presidente da RDC, Joseph Kabila, também deveria respeitar a cessação das hostilidades. “Hoje é um grande dia para nós, porque perdíamos muitos homens, mas agora temos uma mensagem de paz. Devemos trabalhar para esta missão de paz”, concluiu.

Obasanjo declarou que seu encontro com Nkunda foi “muito bom” e que o líder rebelde quer manter o cessar-fogo, mas que isto é algo que deve ser respeitado pelas duas partes. “O cessar-fogo é como dançar tango: não se pode fazer sozinho”, ressaltou.

Comitê

O emissário da ONU anunciou ainda ter fechado um acordo com o líder rebelde para criar um comitê tripartite para fazer com que o cessar-fogo seja respeitado. “Nkunda reiterou que acredita em um cessar-fogo aplicado e respeitado pelas duas partes”, afirmou Obasanjo.

“[Ele] Quer que o governo assuma a responsabilidade do cessar-fogo em nome dos que considera aliados de Kinshasa”, acrescentou o ex-presidente nigeriano, em uma referência aos grupos armados que combatem junto ao Exército congolês.

“O comitê será composto por um membro do CNDP e por um representante do governo. Quanto ao terceiro membro, pensei na Monuc [Missão da ONU na RDC], mas Nkunda questionou enquanto instituição”.

“Porém, ele não apresentou objeções a um indivíduo da Monuc”, completou o enviado especial da ONU.

Encontro

O emissário da ONU chegou de helicóptero a Jomba procedente de Goma e foi recebido com um caloroso aperto de mãos por parte de Nkunda. Nenhum dos vários emissários que viajaram nas últimas semanas ao antigo Zaire havia conseguido um encontro com o líder rebelde.

Karel Prinsloo/AP
Meninos preparam comida em campo de deslocados; conflito causou fuda de 250 mil
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Nkunda, de etnia tutsi e antigo general do Exército congolês, trocou o tradicional uniforme militar por um terno cinza claro, camisa branca e gravata vermelha para receber o ex-presidente nigeriano Obasanjo.

Na chegada, Obasanjo passou em revista as tropas rebeldes do CNDP, antes de entrar, ao lado de Nkunda, no pequeno edifício em que aconteceu a reunião.

Antes de se reunir com Nkunda, Obasanjo visitou vários campos de refugiados na região da província de Kivu Norte e se reuniu com autoridades locais. O enviado especial da ONU sobrevoou a zona em helicóptero para conhecer a situação militar e humanitária.

Conflito

No mesmo dia do encontro, os combates foram retomados pela manhã entre forças do governo e rebeldes em Nkunda, na região de Rutshuru, a 20 km de Kanyabayonga, para onde a Monuc enviou reforços.

Segundo a Monuc, rebeldes do CNDP atacaram as posições dos soldados das Forças Armadas da RDC posicionados em uma interseção da estrada que liga Goma a Butemo, embora as forças do governo tenham conseguido dispersar a ofensiva.

As tropas rebeldes estão ativas há vários anos no leste da RDC. No final de agosto os combates foram retomados entre o Exército congolês e o CNDP, violando um cessar-fogo decretado em janeiro. Nkunda acusa o governo de não defender adequadamente os direitos não apenas de seu grupo étnico, os tutsi, mas de toda a população congolesa, das supostas incursões dos hutus ruandeses no leste da RDC.

Arte Folha Online

Nas últimas semanas, os rebeldes infligiram derrotas humilhantes ao Exército. Desde o fim de outubro, estão posicionados a 15 km de Goma e há vários dias a 20 km de Kanyabayonga (100 km mais ao norte), um enclave estratégico para o acesso ao norte da região de Kivu Norte.

Os combates provocaram uma situação humanitária catastrófica, com mais de 250 mil pessoas deslocadas, a maioria sem qualquer assistência das organizações humanitárias por causa da insegurança.

Os confrontos prosseguem apesar da trégua unilateral declarada pelo CNDP, o que faz com que cada lado culpe o outro pela crise. Segundo Obasanjo, Nkunda também concordou com a manutenção dos corredores para enfrentar a crise humanitária, desde que o governo acabe com seus postos de controle.

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