II- As raízes africanas do cristianismo latino…

. O peso demográfico da Igreja da África no Ocidente latino

     Claude Lepelley, em sua conferência na Unesco, encontra outro motivo pelo qual a Igreja da África influenciou o Ocidente latino: seu peso demográfico. Não é fácil medi-lo em termos de população cristã, mas o número de episcopados é notável. No primeiro Concílio de Cartago, no ano 200, já se contam setenta bispos da África romana sob a presidência de Agripino. No mesmo período, na Itália setentrional, não se sabe se havia outros episcopados além dos de Roma, Milão e Ravena. No segundo Concílio de Cartago, já são noventa bispos africanos reunidos. No mesmo período, no Sínodo de Roma, sob o papa Cornélio, contam-se apenas sessenta bispos. No Concílio de Arles sobre o donatismo (problema africano), em 314, nota-se a presença de 46 bispos (16 da Gália, 10 da Itália, 9 da África, 6 da Espanha e 8 da Bretanha).

 

     Conhecemos o número de bispos que participaram do Concílio de 411 em Cartago. Sabe-se que havia 279 bispos católicos presentes e 270 donatistas. Considerando que de ambos os lados havia uma centena de bispos ausentes, seu número total chegaria a mais de seiscentos. É um dado que dá uma idéia da rede de episcopados sobretudo na África proconsular (Tunísia), mas também na Numídia (região de Constantina).

 

     Além disso, a influência africana em Roma faz-se sentir já desde 189, quando Vítor, um africano de Leptis Magna, é eleito papa em Roma (189-198). Isso mostra o espaço que devia ter a Igreja da África em Roma desde o fim do século II. Um espaço que, nos séculos III e IV, continuaria a aumentar.      

      5. A influência determinante de Santo Agostinho

     Mas todos os elementos assinalados até aqui não teriam seguramente conseqüências duradouras sem a personalidade teológica e espiritual de Santo Agostinho, e sem as prodigiosas dimensões de sua obra escrita. É inútil evocar aqui como a sua influência persiste no Ocidente latino até a Reforma, até o jansenismo, e, por último, até hoje. Essa influência foi descrita em todos os estudos sobre Agostinho. O que se deve sublinhar, sobretudo, é a presença, em sua obra, de uma síntese original do cristianismo, que, mesmo conhecendo ele a patrística grega, ganha os contornos de uma meditação pessoal da Escritura e de sua experiência espiritual específica.

 

     Goulven Madec, numa obra recente (Lectures augustiniennes, Paris, 2001, pp. 99-109), propõe um estudo sobre as influências cristãs recebidas por Agostinho, e nota a importância das referências latinas, mais numerosas que as dos Padres gregos. Hilário de Poitiers, a certa altura exilado no Oriente, e Ambrósio devem muito mais a suas fontes gregas do que Agostinho. Agostinho deseja ser plenamente fiel à tradição da grande Igreja, mas arraiga sua teologia em primeiro lugar na sua leitura pessoal das Escrituras e na própria experiência.

 

     Sua referência às fontes da filosofia grega também é mediada pelo testemunho de dois latinos, Simpliciano e Vitorino, mais do que pelo dos Padres gregos. Com Agosti­nho, o Ocidente latino conquistou sua independência teológica e, com isso, também sua personalidade cristã.

 

     Alguns poderiam desaprovar essa evolução, e preferir a leitura do cristianismo proposta pelos Padres gregos. Mas todos devem reconhecer que o Ocidente latino deve sobretudo a Agostinho sua leitura própria da mensagem bíblica.     

      6. A tradição monástica agostiniana

      Sabe-se que o monaquismo nasceu no Oriente. Ele se difunde no Ocidente primeiramente por intermédio de São Martinho ( 397), nascido em Panônia, na fronteira latina do Ocidente. O próprio Agostinho conta como descobriu, em Milão, graças a Ponticiano, alguns anacoretas convertidos à vida ascética pela biografia de Santo Antônio Abade ( 356), que Atanásio acabara de escrever, poucos anos depois da morte de Antônio. Essa descoberta, como se sabe, terá um papel importante na vida de Agostinho, que, de volta a Tagaste, organizará os primeiros lugares africanos de vida monástica. Adaptará, depois, esse modo de viver à comunidade que se desenvolverá ao seu redor, quando for bispo, e dará ao mundo latino sua regra de vida e o exemplo de suas comunidades monásticas pastorais. O Ocidente latino adotará esse exemplo numa parte de sua tradição de vida religiosa comunitária (os agostinianos, os premonstratenses, etc.). Mas os especialistas encontram também na regra de São Bento influências derivadas em particular da regra de Santo Agostinho.    

     7. A influência do direito eclesiástico africano

     O professor Claude Lepelley nos sugere também um outro âmbito no qual se exerce a influência da Igreja da África sobre a Igreja latina: o do direito eclesiástico. Como se sabe, a vida conciliar foi mais intensa na África setentrional que nas outras regiões do Ocidente latino, sobretudo nos séculos III e IV. As decisões daqueles entendimentos constituíram o corpus que influenciaria as Igrejas do Ocidente, sobretudo por intermédio da Espanha visigótica.     

      8. A obra de Agostinho, disponível na Europa desde a morte do bispo de Hipona

     Não podemos contar, aqui, como a obra de Agostinho conseguiu escapar do saque de Hipona realizado pelos vândalos, para depois conquistar a Europa. Serge Lancel diz sobre isso: “Não faltam indícios que permitem afirmar, sem provas, mas com forte verossimilhança, que o conhecimento extremamente completo que se tinha na Itália da obra de Agostinho desde a metade do século V não se devia às cópias de sua obra, difundidas antes da morte do bispo de uma forma apenas parcial, mas muito mais a sua transferência integral para Roma e a sua inserção no acervo da biblioteca apostólica, por volta da metade do século V, em condições e de formas que, diga-se, continuam a ser misteriosas, se não miraculosas” (Serge Lancel, Saint Augustin, Paris, 1999, p. 668).

 

     Assim, a obra de Agostinho acabou disponível muito cedo ao norte do Mediterrâneo, de onde teve a difusão que todos sabemos.

 

     Conhecemos o que está escrito sobre um afresco no Latrão que constitui a mais antiga representação do bispo de Hipona: “Os vários Padres explicaram muitas coisas, mas apenas ele disse tudo em latim, explicando os mistérios com o tom de sua grande voz”.     

     Conclusão

     Parece-me que as várias temáticas enfrentadas, não obstante a brevidade das indicações propostas, põem suficientemente em evidência a realidade das raízes africanas ou númidas do cristianismo latino. Uma ilusão de perspectiva levou muitas vezes a considerar os primeiros séculos cristãos, no Império do Ocidente, como uma realidade quase unicamente européia. Na realidade, uma região como a África proconsular parece ter sido evangelizada muito antes e de maneira mais vasta que muitas regiões do norte da Itália, das Gálias ou da Espanha. Apenas para dar um exemplo, é significativo que o primeiro Concílio das Gálias, em Arles, a 314, tenha-se reunido para dar seu apoio a um problema tipicamente africano, o do cisma donatista. É a prova dos laços que então existiam entre as Igrejas ao norte e ao sul do Mediterrâneo ocidental. Mas é também a prova das dimensões reduzidas das Igrejas setentrionais, que, reunindo bispos da Itália, da Gália, da Espanha e da Bretanha, aos quais se acrescentavam bispos africanos, só conseguiam juntar um número de participantes muito inferior ao dos concílios africanos da mesma época.

 

     Mas é claro que será sobretudo com a personalidade espiritual, pastoral e teológica de Agostinho que a influência da Igreja africana sobre as Igrejas da Europa assumirá todo o seu porte. Um fato tão consolidado, em nível teológico, que não é nem o caso de frisá-lo. Mas é preciso calcular sua importância para além da esfera particular das ciências eclesiais. As opções filosóficas feitas por Agostinho já fazem parte do condicionamento do pensamento no Ocidente europeu. Para dar a essa afirmação o peso que ela deve ter, pode-se transcrever, entre outros testemunhos, a observação de um dos mais recentes ensaístas sobre a questão, Jean-Claude Eslin: “Do nosso ponto de vista, a grandeza de Agostinho consiste em ter ele sabido construir, numa obra que compreende mais de noventa volumes e opúsculos, uma articulação inédita entre o mundo da antigüidade e o mundo cristão que lhe dá nova forma. Nesse sentido, Agostinho representa o primeiro homem ocidental, o primeiro moderno, pois é o primeiro a ter tentado uma tal articulação numa expressão filosoficamente inteligível, e, tendo-o feito, modelado assim a nossa sensibilidade durante séculos. Com relação ao Império Romano, e também ao cristianismo do Oriente e à estabilidade dos valores deste mundo e do homem antigo, ele marca uma ruptura, e representa o momento fundador, pelo fato de que instaura uma inquietude ocidental, e introduz uma instabilidade constitutiva (na política, na sexualidade), uma dinâmica que, depois de quinze séculos, não se encerrou; Agostinho é a inquietação do espírito no próprio seio do porto encontrado” (Saint Augustin. Lhomme occidental, Paris, 2002, pp. 8-9).

 

     Não acabaríamos de citar expressões que põem em evidência a influência sem igual do pensamento e da obra de Agostinho sobre o Ocidente latino. “Nenhuma obra de um autor cristão em língua latina suscitaria admiração e inquietude tão grandes e conheceria uma glória semelhante” (Dominique de Courcelles, Augustin ou le génie de lEurope, Paris, 1994, p. 295). A ponto de o autor desse trecho, mesmo sabendo que está falando, como ele diz, “de um bárbaro cristão”, dar a sua obra o título Agostinho ou o gênio da Europa. E esse gênio era um númida do Império Romano. Que transfusão de sabedoria do sul para o norte do Mediterrâneo!

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